EDITORIAL
DA CRIAÇÃO DO PEQUENO PRÍNCIPE
E OUTRAS ESPECULAÇÕES ENGANOSAS
Em meio aos grandes ruídos dos tempos que correm, eis um acontecimento realmente extraordinário: o Pequeno Príncipe de Antoine Saint-Exupéry completa 70 anos. E mais extraordinário ainda: ele continua um infante, morando no mesmo asteroide B612, com três vulcões, uma rosa e uma raposa com os quais fala, sempre com sua echarpe amarela, igual a seus cabelos louros.
O livro já vendeu mais de 143 milhões de exemplares no mundo todo, traduzido para 257 idiomas e dialetos.
Seu autor, Antoine de Saint-Exupéry, era francês e piloto de avião do correio aéreo, tendo falecido em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial. Começou a escrever o Pequeno Príncipe em 1943, nos Estados Unidos, onde se achava a tratamento.
Em quem ele teria se inspirado para criar tão insólito personagem? Muitas têm sido as especulações a respeito. O Correio Braziliense, em seu suplemento de 27.04.13, vai na mesma onda exploratória para dizer que o autor teria se inspirado num livro de Hans Christian Andersen“para criar o primeiro esboço do menininho que se tornaria o Pequeno Príncipe.” Ou fez de filhos de amigos seus modelos e outros quejandos. Aliás, no Brasil tem-se essa insólita mania, transformada num verdadeiro mau gosto, de simplesmente repetir o que outras fontes ou pessoas dizem, antes de comprovar a veracidade dessas informações. Isto é, sem que busquem a autenticidade das informações, na sua origem primeira, seus fundamentos. Espécie de lei do menor esforço, por ouvir dizer ou porque outras pessoas disseram aquilo, escutaram de alguém, foi citada por não sei quem, que a leu não se sabe bem onde.
Esclarecemos que esta não é primeira vez – e certamente não será última – que vimos a público denunciar certas informações desprovidas de provas ou de fundamentação, senão falsa, pelo menos ineptas ou de frágil sustentação probante. Pelo menos em dois fatos ou casos comprovamos a ocorrência de falsa argumentação probatória da parte de nossa mídia escrita, televisiva e falada. Um deles – o segundo fato narrado a seguir – de constatação até inequívoca.
O primeiro caso é o assinalado de início, a criação do Pequeno Príncipe, em que ou quem Saint-Exupéry se inspirou para construir seu célebre personagem. Respondo logo diretamente que nós sabemos, sem sombra de dúvida, a solução do enigma. Digo mais: não foi em nenhuma dessas fontes apontadas e alardeadas pela mídia, já faz algum tempo, e que o Correio Braziliense, inadvertidamente, se enleou nas mesmas águas, sem apurar, realmente, a verdade, ou porque seus jornalistas não sabem ou por desleixe mesmo deles, o que não seria nenhuma novidade, dada a fragilidade dos contrafortes comprobatórios de nossa mídia de hoje.
Isto porque por ocasião da ECO-92 – aquele evento multidisciplinar ocorrido no Rio de Janeiro, em 1992 – quando participávamos de um Congresso Mundial de Filosofia, vinculado oficialmente ao acontecimento, numa das preleções constante da programação, seu Coordenador Geral, o filósofo Tarcísio Padilha, do Instituto de Filosofia do Rio de Janeiro e ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, quebrando o protocolo e à guisa de novidade, nos apresentou nada menos que a pessoa em quem Saint-Exupéry se inspirou para criar o Pequeno Príncipe, um senhor canadense, cujas feições por incrível que pareça, apesar da meia idade, com bastante semelhança de um garoto de cabelos encaracolados. E ali estava à nossa frente, pois, em carne e osso, o Pequeno Príncipe, um filósofo, que nos cumprimentava a todos, de barba e cabelo ruivo, o mesmo olhar indagativo do menino proprietário do asteroide B612 e que fazia tantas perguntas a Exupéry. Agora mestre em filosofia. Infelizmente, esqueci a máquina fotográfica em casa e, por um lapso de que até hoje me arrependo, deixei de documentar o fato, perdendo, assim, a rara oportunidade de tirar uma foto ao vivo ao lado do Pequeno Príncipe.
O outro caso decorre de desinformação, com licença da palavra, de natureza cavalar. São entrevistas de escritores, artigos, crônicas escritas, de jornalistas, palavras alardeadas, pelas quais os entrevistados declinam alto e bom som ou escrevem em seus artigos um verdadeiro absurdo, na realidade um descalabro literário e cultural: de que William Shakespeare na peça Hamlet teria escrito a seguinte frase: “Há entre mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que tem pensado tua vã filosofia.”
Ora, é a maior estupidez verbal de que se poderia fazer uso, pois, Shakespeare, considerado o maior autor dramático da era elisabetana e o dramaturgo que mais influenciou o teatro mundial – jamais escreveu a frase como descrita, isto é, em absoluto ele disse a palavra VÃ. Porque seria um absurdo para um erudito como ele, Shakespeare, declarar que a filosofia é vã!
Para provar a barbaridade, em cuja armadilha, diga-se a bem da verdade, caíram – pasmem todos – escritores e jornalistas como Ferreira Gullar, Carlos Heitor Cony e outros medalhões, inclusive o autor recente de “A Questão Finkler”, Howard Jacobson, que se diz intelectual inglês e professor, em livro editado pela Bertrand Brasil, à página 74, em escritos, entrevistas, propaladas na TV e em periódicos de circulação nacional – apresentamos a fonte fidedigna onde o trecho está consignado, no original, na obra do autor William Shakespeare, peça Hamlet, cena V, pag. 1038, de suas Obras Completas, edição Collins London and Glasgow, ipsis-litteris:
“There are more things in heaven and Earth, Horatio,
Than are deamt of in your philosophy.”
Como se pode verificar, inexiste o vocábulo VAIN, que seria o equivalente ao nosso vã. Mas nossos homens de letras, jornalistas e a mídia continua inadvertidamente a cometer o mesmo erro e propagar, mundo afora, uma ideia inverídica.
Quanto ao mérito em si dos setenta anos do Pequeno Príncipe e principalmente do autor que o criou – ah, isto seria bom discutirmos em outra hora, porque tem muita coisa a ser revelada e muita filosofia a ser abordada em função do livro e do escritor, a verdadeira, jamais a falsa, porque a filosofia, per se, não pode ser considerada vã.
CDL/Bsb, 29.04.13
ROMA:
GRANDEZA E DECADÊNCIA
PARA OS DIAS ATUAIS
O escritor e filósofo iluminista francês, Charles-Louis de Secondat, Montesquieu, em 1734 – então com 45 anos – escreveu o ensaio “Considerações sobre as Causas da Grandeza dos Romanos e de sua Decadência”, no qual aponta como principal fator da ruina da grande civilização construída pelos romanos a desintegração dos costumes e a recorrente corrupção política e social em Roma. Cícero, no Senado Romano, um século antes de Cristo, já advertia em seus célebres discursos: “Ó tempos, ó costumes!”.
Ressuscitássemos homens como Montesquieu e Cícero, de seus veneráveis túmulos, em França e Roma, o que será que diriam dos nossos tempos, disso tudo que constitui, hoje, a civilização pós-moderna? Se vivo fosse e atuasse no Senado brasileiro, que palavras o grande orador romano haveria de dizer ao ver tanto desvairo, tanta fragilidade de debates e tanto descaso de nossos parlamentares à res publica?
Em defesa aos nossos pósteros, dir-se-á que outros são os tempos, vivemos noutro patamar civilizatório, o homo sapiensalcançou degrau cósmico, é vislumbrado como dignatário das estrelas.
Montesquieu, como vanguarda iluminista, teria condições de analisar a civilização tecnológica de nossos dias?
Que defeitos apontaria para os desmandos praticados em nome da modernidade e do progresso? Segundo ele, Roma desintegrou-se invadida por hordas de bárbaros. E o que dizer de hoje, quando o mundo todo parece barbarizar-se, acometido de outro tipo de barbárie, a globalização, disseminando benefícios certamente, mas também o amoralismo, a liberalidade excessiva, o sensualismo desbragado, a ideologização e massificação do pensamento?
Hunos, godos, visigodos, ostrogodos, burgúndios, alenos, suevos, vândalos, anglos, saxões, jutos, hérulos e francos – eis a horda de bárbaros que esfacelou o império romano. Ora, hoje os encontramos rebatizados de outros nomes, ostentam outras bandeiras: são chefes de nações, mandatários de facções políticas, lideram grupos e movimentos de cunho ideológico-político, comandam ações terroristas. As armas, os instrumentos com que se batem nossos novéis trogloditas não são mais a de outrora, o arco, a flecha, a biga, a lança, a foice, os pilos, o porrete, o machado, a faca – esses moderníssimos milicianos se atualizaram e suas armas são muito mais eficientes, bem adequadas à atualidade. Nossos novos bárbaros usam a palavra, se apoderam da mídia e na devida oportunidade – caso dos mais indóceis, os núcleos terroristas – utilizam expedientes extremos, explodem prédios e chacinam pessoas, quando não incineram milhões de seres humanos em fornos com a justificativa irônica de “solução final”, como fizeram os nazistas com os judeus, na 2ª Guerra Mundial e o regime stalinista com seus desafetos políticos ou facções contrárias.
Quem está disposto, em nossos dias, a escrever um ensaio, à guisa de Montesquieu, sobre “As Causas da Grandeza e Decadência da Modernidade”? Ter-se-ia coragem de enumerar os grandes defeitos, os desmandos praticados e as perspectivas dos desacertos futuros?
Quem são os grandes vilões da atualidade, sejam pessoas, entidades ou empreendimentos? É Kim Jong-un, o rapazote de vinte e poucos anos investido de ditador da Coréia do Norte que alardeia enfrentar nada menos que os Estados Unidos, ameaçando Obama com mísseis atômicos? Ou é o ditador da Síria, cujo regime despótico já eliminou meio milhão de pessoas, por considerá-las contrárias a seu governo insano?
Ou não será, mutatis mutandis, um grande movimento de cunho globalizante que vem se preparando hà anos para dominar o mundo, não pela força física, mas sub-repticiamente através de ações que se corporificam em crises econômico-financeiras, espécie de “teoria conspiratória”, tanto mais imperceptível quanto dilapidatória, posto que visa escravizar toda a humanidade, inclusive disseminando a veneno do ceticismo político e religioso, em favor do materialismo global e irreversível, proclamando a erradicação da fé, trocando-a pelo individualismo gestáltico e epicurista?
Esse o grande dilema que vivemos hoje, quando nos deparamos com essa psicodélica visão apocalíptica do mundo, em que teorias de conteúdo espúrios ensejam invadir e dominar, não propriamente nossas fronteiras políticas ou geográficas, mas muito pior, avassalar o íntimo de nossas consciências e corações, envenenando-os com a peçonha, sob a aparência de “movimentos libertários”,de desvios comportamentais antinaturais, representados por inovações insensatas, aéticas e aestéticas, como se fosse possível engendrar nova concepção social, natural e antropológica do ser humano, animal político racional, subordinado às leis morais e jurídicas.
Não somos absolutamente pessimistas, tampouco pensamos nosso mundo e o futuro sob o enfoque do nihilismo, mas isto não nos dá esperanças, no status quo das coisas atuais que, a moto próprio e por uma espécie de empreendedorismo frankensteniano, logo nos deliciaremos com o paraíso terrestre.
CDL/BSB, 11.04.13
O
PAPA FRANCISCO, SUA DIFÍCIL MAS AINDA POSSÍVEL MISSÃO
Acredito
que o recém entronizado Papa de cognome Francisco – o jesuíta Jorge
Mario Bergoglio – é o Pontífice possível da Igreja Católica para o tempo
e o mundo possíveis.
Não há negar que a Igreja, que se acredita depositária e herdeira direta
do primitivo cristianismo frente a ininterrupta sucessão da Cátedra de
Pedro, o Pescador – mantém-se atualmente em crise. No entanto, crise
maior se encontra o próprio mundo, ou seja, a civilização construída
pelos supostos portadores da inteligência máxima, evoluída a partir dos
espécimes homo habilis, fabens, passando para a linhagem exclusiva dos
sapiens em arrancada surpreendente, desde quando saltou das árvores,
ganhou as savanas e adotou, estrategicamente o bipedalismo, com que
visualizou, então, o horizonte de seu destino como administrador do
mundo, seres e coisas que o circundam.
Destarte, espécie não nos deve causar se nos depararmos com outra coisa
senão o mundo possível, este em que vivemos, em cujo contexto nos
encontramos inelutavelmente inseridos. Nossa civilização afigura se
esboroar, tanto os desvios, os desencantos de rumos a ocorrerem – tanto
mais quanto são os confrontos com que se debatem nações, comunidades e
indivíduos. O horizonte de nosso mundo parece turvar-se, o desespero, a
angústia, o dissenso e uma inominável desconstrução parecem ousar a
desterriorização não só do ordenamento civilizatório, mas – e o que é
mais temerário – a destruição do próprio pensamento como fonte e
baluarte da racionalidade.
Em tal cenário, o que um novo Pontífice que chefia mais de um bilhão de
fiéis pode fazer, à frente da Igreja Católica? Quais passos o Papa
jesuíta se aventurará empreender nessa sua nova empreitada, certamente
não menos espinhosa do que a do seu antecessor – o grande teólogo da
harmonia entre a razão e a fé que foi Bento XVI?
Os primeiros passos do Papa Francisco não parecem deixar dúvidas,
tampouco dar margem a especulações esdrúxulas, como de que se arvoram
algumas desavisadas pessoas. Acreditem ou desacreditem que quiser: a
Igreja Católica não mudará de rumo, nem de prumo, o novo Para não cederá
às insinuações malévolas dos críticos plantonistas. Tampouco acolherá os
reclamos dos ousados reformadores, cujo interesse principal, não há
negar, é modificar a dogmática da fé católica, transformando-a noutra
coisa, menos numa religião construída e continuamente alimentada nos
ensinamentos originais da seiva crística.
Recordemos as primeiras palavras do desassombrado jesuíta que se tornou
merecidamente nosso Papa – o Pontífice destinado a nosso tempo: “Se não
proclamarmos Jesus, nos transformamos numa ONG piedosa”
Não só uma ONG piedosa, Sua Santidade, diríamos nós, na nossa modesta
reflexão, mas sempre atentos à secularização do mundo e o progresso
vertiginoso do materialismo globalizante. Sim, o que mais nos apavora
não é a religião tornar-se uma autarquia social – mas a fé ser
simplesmente abolida da face da terra, por supérflua.
Oxalá o Papa Francisco ouse sofrear franciscanamente essa possível
calamidade, antes que seja impossível evitá-la.
CDL/BSB, 22.03.13
· * Editorial escrito à mão esquerda, auscultando os encômios da razão.
HABEMUS AUT
NON HABEMUS PAPAM?
Eis
a grande questão que nós, católicos, enfrentamos no momento: temos ou
não temos Papa?. Bento XVI acaba de renunciar ao trono petrino, devendo
encerrar definitivamente seu mandato no próximo dia 28. E agora? É
esperar que o corpo cardinalício dê início ao processo de eleição do
novo pontífice que ocupará a Cátedra de Pedro.
A renúncia do Pontífice deu-se no dia 11 deste e surpreendeu o mundo
todo. Quem poderia supor que aquele Papa, que iniciou suas atividades de
maneira firme, impondo um ritmo vigoroso à Igreja, fosse, um dia,
renunciar? Especulações já rondam a ocorrência. Um jornalista italiano,
vaticanista, afirma que teria sabido da renúncia desde 2011. Há rumores
de que o Vaticano sofrerá abalos na sua própria estrutura. Boatos e mais
boatos.
O certo é que a Cátedra de Pedro estará novamente vaga. E iniciar-se-á,
segundo o porta-voz do Vaticano, a partir de 15 de março, o rumoroso
processo de ocupação da vacância papal.
Os motivos que impuseram ao Papa à desistência, ele mesmo anunciou em
carta específica por ocasião de Consistório da Cúria. Alega estado de
saúde, de não se achar mais física e espiritualmente à altura do
enfretamento dos problemas que afligem a Igreja e o mundo. Em suas
próprias palavras, diz Bento XVI: “...Contudo, no mundo de hoje, sujeito
a rápidas mudanças e agitado por questões de profunda relevância para a
vida da fé, de modo a governar a casa de São Pedro e proclamar o
Evangelho, ambas as forças mental e de corpo são necessárias, forças que
em mim nos últimos meses se deterioraram a um ponto que eu tenho de
reconhecer minha incapacidade para cumprir adequadamente o ministério a
mim confiado.”
No entanto, depois de ter anunciado a renúncia, o Papa, falando em
audiência, insinuou a ocorrência de “dissidências no Vaticano”, dando a
entender também da existência de uma espécie de contenda velada pela
posse do poder.
De modo que nem tudo parece correr assim tão pacificamente à ocupação do
lugar vago de Pedro. Sem falar que, à essa altura, erigem-se os inimigos
da Igreja, cujo único intuito é desmoralizar os alicerces da fé
católica, quando não se tratem – o que é pior – dos que se travestem de
amigos, partilham até de seu corpo de magistério, mas, por detrás, a
delatam, traindo o pacto apostólico com suas invencionices supostamente
progressistas. Talvez sejam esses os lobos a que o Mestre se referiu
quando ensinava seus discípulos a serem como cordeiros que teriam de
conviver com aquela sibilina alcatéia (Mt.10.16).
CDL/BSB. 16.0213
DOS ATOS E FATOS LESIVOS AO BEM COMUM:
DECISÕES E SOFISMAS RECORRENTES
Nestes novos tempos do raiar de 2013, temos auscultados certos rumores estanhos entre nós, que, de certo modo, até destoam do consenso popular. Parecem ecos tardios do julgamento do chamado mensalão, sob a égide do Supremo Tribunal Federal . São vozes que ressoam após aquelas legitimadas no mais lídimo patriotismo, tão elogiadas e que alçaram nossa justiça a superior patamar, repercutindo aqui e no exterior.
Tais atitudes nos levam a refletir de como atos e fatos, praticados pelos seres humanos ainda são, todos eles, suscetíveis de engano, esclarecimento e faltos de compreensão, mesmo em nossos dias, no nosso tempo e no nosso torrão. Causa-nos perplexidade saber que situações já decididas – inclusive essa decisão unânime de nossa Suprema Corte – ainda suscitem dúvidas e motivem arguições sinuosas, gerando interpretações cheias de dúvidas e mal-entendidos. Espécie de imputações lamuriosas, das quais participam grupos ou pessoas descontentes, segundo as quais as punições atribuídas aos culpados da famigerada ação penal foram exorbitantes, que os julgadores poderiam ter sido mais indulgentes, para com os coitadinhos desses empresários, políticos e funcionários públicos. Afinal eles apenas erraram a mão: atacaram os cofres públicos, coisa desimportante.
E vão além essas vozes dissonantes, indicam que o juízo prendeu-se a arbítrio cujos pesos tiveram duas medidas, em comparação com outra decisão anterior (abril de 2010), quando o STF anistiou os torturadores dos que se opuseram à Revolução de 1964, alegando tratar-se de crime político, portanto, amparados pela lei geral da anistia.
Ora, a nosso ver, os dois fatos não são congêneres, embora decorram de comportamentos criminosos, mas ajuizados sob diferente ângulo decisório, a tortura como ato político, a corrupção, delito público, a cobro das leis penais vigentes. Confrontar, pois, os dois casos não deixa de ser um sofisma, uma vez que nos defrontamos com medidas para pesos diferentes, referimo-nos a época e situações superadas.
Inobstante o sofisma – sejamos bem claros – um e outro caso merece nosso repúdio, pela ignomínia e malignidade de que ambos se revestem: o que tortura porque atenta contra a dignidade humana, portanto torpe o seu agir. Não menos torpe e insidioso é o corruptor, aquele que saqueia os cofres públicos. A tortura é crime contra a humanidade, disso não temos dúvida em face de outros que a vilipendiaram ao longo da história. Mas, prevalecer disso para diminuir o peso infame da corrupção, é no mínimo antievangélico.
Jesus Cristo, nosso Salvador, foi, sim, torturado sob os judeus e soldados romanos. Todavia, não nos esqueçamos que à porta da sinagoga, em Jerusalém, o Mestre expulsou os vendilhões do templo que ali faziam negócios (Mat.21,12-13, Luc.19,45s e Jo.2, 13-22). E o fez não com mão leve , com benevolência, mas com um chicote, tamanha sua indignação. E quanto aos vendilhões da Pátria , os modernos ladrões de colarinho branco que se refestelaram do dinheiro do Povo? Mandá-los para uma Casa de Repouso?
CDL/BSB, 25.01.13
FIM DE ANO, FIM DOS TEMPOS, FIM DO MUNDO,
CALENDÁRIO MAIA — SOBREVIVEREMOS?
Temos certeza que sim. Nós, seres humanos – já sobrevivemos de muitas catástrofes. Não sobrevivemos a turbulência diluviana? A Terra não se rachou nos continentes que se apartaram e com eles o elemento humano, sedimentado em diversas raças, gerando costumes e culturas diferentes? Não dizem os especuladores exóticos que os habitantes da chamada mesoamérica são na realidade sobreviventes da mítica Atlântida?
Agora, eis que nos afrontam com nova investida de fim do mundo, consoante as profecias dos antigos Maias. Isto é – especulações mais estrambóticas ainda têm preconizado que, seguindo instruções não menos esdrúxulas do Calendário Maia, sobre o ciclo Bak'tun do sistema de contagem longa mesoamericana – nosso mundo terá fim exatamente no dia 21.12.12, portanto, antes do término do presente ano de 2012. Essa escatologia, diga-se de passagem, remonta a Cristóvam Colombo, o qual inclusive, como fruto de suas inúmeras viagens ao Novo Mundo, compilava material dos novos povos para seu Libro de las Profecias .
Ocorre que tais especulações não são absolutamente originais. Elas de há muito que proliferam, até agora felizmente sem êxito. De um modo geral, os cientistas não acreditam, taxando-as de pura fantasia, má interpretação, creditando tais profecias aos movimentos sobre milenarismo e ocultismo.
E todos sabemos porque: não há no horizonte nenhum evento astronômico sequer previsto para esta data. Essa anomalia escatológica é divulgada apenas pela chamada Nova Era, que atribui o fenômeno catastrófico a suposto alinhamento planetário, sintomatologia da tragédia final iminente.
Bem verdade que pululam seitas que acolhem tal escatologia, só para citar, o hinduísmo, o islamismo, algum judaísmo cabalístico, o budismo e os protestantes Igreja dos Santos dos Últimos Dias e Adventistas do Sétimo Dia.
Já Cícero admoestava, um século antes de Cristo, ao referir-se em seus discurso no Senado Romano à decrepitude dos tempos e aos desvarios do costumes, à época: “Ó tempos, ó costumes”.
Quanto a nós, em pleno século XXI, fim do mundo ou deterioração dos tempos e costumes afiguram-se-nos não o desaparecimento do planeta Terra mediante uma catástrofe fenomênica de proporções avassaladoras a ponto de nos eliminar do contexto cósmico. Muito pior talvez que a finalização de tudo é presenciarmos os fatos execráveis de que a humanidade tem sido vítima, campearem mundo afora distúrbios e violências execráveis.
Oxalá o ser humano saiba tirar proveito do fenômeno escatológico tão alardeado pelos vaticinadores de plantão e reflitam sobre essas supostas ocorrências, não no sentido estrambótico, mas movidos pela esperança de que o mundo e os seres que o habitam conscientizem-se de sua racionalidade agindo como tais cujos destinos é o limiar das estrelas, recusando-se ao rastejar dos energúmenos e trogloditas que se esqueceram de ser humanos.
CDL/BSB, 20.12.12
LIBERDADE,
LIVRE-ARBÍTRIO, ECONOMIA DE MERCADO,
SOCIEDADE DE MERCADO : MUNDO POSSÍVEL?
Vivemos um mundo possível, no qual o ser humano, atendendo ao princípio da razão suficiente, para sobreviver estabelece suas próprias condições de adequabilidade? E que, este, o mundo escolhido, seria o “melhor dos mundos possíveis? Eis o que pregava o grande filósofo alemão do século XVIII, Wilhemlm Leibniz (1645-1716).
Ocorre que esse nosso mundo possível parece cada vez mais refletir as mais complexas possibilidades, em termos filosóficos, econômicos, políticos e sociais. A nossa civilização vem se tornando, a cada dia, um enigma que implica soluções complexas, instigantes e, em muitos casos, paradoxalmente surpreendentes.
A esse propósito, vem-nos à baila o livro recente do filósofo de Harvard, Michael Sandel, O Que o Dinheiro Não Compra, assim como o anterior, também de sua lavra, Justiça. Em ambos os livros, ele discute, através de casos concretos, problemas atualíssimos relacionados à liberdade, ao livre-arbítrio, à felicidade, justiça, economia de mercado e sociedade de mercado.
Nós, os seres humanos, somos realmente donos de nossos corpos? Tudo pode ser vendido, segundo os parâmetros da chamada ideologia libertária, rins, esperma humano, seguros de vida se os titulares se acham em estado terminal? É possível vender-se o prêmio Nobel? A mulher pode alugar sua barriga, para gravidez, a um contratante interessado? A virgindade de uma moça pode ser leiloada e vendida, sem sofrer quaisquer restrições em termos de ética e moral?
Ora, a mídia acaba de revelar que uma moça catarinense já ousou essa proeza e que tem inclusive marcado o dia em que perderá a virgindade – o próximo dia 20 do corrente – obtendo o preço de cerca de 1.6 milhão de reais (Veja nº 47)!
O que rege a nossa sociedade, o livre mercado ou o arbítrio da lei moral e mais justa? Somos realmente livres para fazermos o que bem entendermos? O livre-arbítrio é o que nos torna livres ou ele não passa de um instrumento utilizado para escamotear nossa responsabilidade e obediência aos princípios de moralidade e convivência social? O que é a liberdade, o livre-arbítrio, até onde vai nossa suposta autonomia e nosso direito de escolha, sem que tais condições interfiram na liberdade e no arbítrio de nossos semelhantes?
Que civilização queremos construir para nossos pósteros, filhos, netos e bisnetos: uma civilização extremamente mercantilista onde tudo tem seu preço, honra, título, fé, cargo, confiança, bens públicos e privados, onde tudo se resolve pela utilidade contratual ou aquela onde ainda se cultivem conceitos e princípios éticos e estéticos à luz da moral e dos costumes, condicionados por uma razão que suficientemente se adeque às nossas melhores condições de vida possíveis?
Em contrapartida, no contexto desse cenário bipolar, filósofos e humanistas propugnam pela sociedade mais justa, equânime para com suas finalidades econômico-sociais, sob parâmetros democráticos. Enquanto, outros, oportunistas e aproveitadores, alardeiam os benefícios da socialização, cuja ideologia, em última instância, consiste na apologia ao Leviatã estatal, sob a pretensa utopia da igualdade massificada.
A terceira via, preconizou-a bem Aldous
Huxley com seu profético
livro “Admirável Mundo Novo”, de
1932, cujas desconcertantes projeções, para a humanidade, ousou
confirmar em 1959 no seu “Regresso
ao Admirável Mundo Novo.”
CDL/BSB, 19.11.12
AS LÁGRIMAS DE HERÁCLITO OU O RISO DE DEMÓCRITO:
CONTRAPONTOS DE NOSSOS DIES HORRIBILIS?
Não há negar: o momento atual no mundo é de tumulto. Na Europa são os distúrbios, passeatas, quebra-quebra contra os governos em vários países do continente europeu, Itália, Espanha, Portugal. No oriente médio, não fica por menos, a guerra da Síria, com a notícia já de 300 mil vítimas, verdadeira hecatombe. É a algaravia geral que também se estende até nosso continente. No império norte-americano, o antepasto midiático de prenúncio das eleições presidenciais em novembro próximo, o embate Barak Obama versus Mitt Romney, tecnicamente empatados nas pesquisas eleitorais. Entre nós, sulamericanos, após a reeleição de Chaves na Venezuela e seu nefasto proselitismo, o noticiário é indócil.
Há relativa calma em nossos domínios, se não fosse esse ruidoso imbróglio do mensalão sob julgamento na Suprema Corte do País, que já perdura por dois meses. É um verdadeiro descalabro penal ou como diria parodiando um vernaculista nosso conhecido “um desbragamento orgíaco criminal.”
É neste panorama que nos cai à mão, em boa hora, o livro da Editora 34, em que republica uma peça filosófico-literária de nada menos que do grande teólogo barroco, polemista e erudito Pe. Antonio Vieira, o célebre religioso, defensor do indígena no Brasil, cujos sermões – dentre os quais o que pregou em 1654, na Igreja de Santo Antônio, em São Luis, conhecido como “Sermão dos Peixes”– tanto incomodaram as classes dominantes e os corruptores da administração colonial. O livro ressuscita quase do anonimato uma disputa acadêmica travada em 1674 na Academia Real de Roma, entre dois padres jesuítas: Antonio Vieira (1608-1697) e Gerolamo Cattaneo (1620-1685). O debate teve por objetivo discutir “... se o mundo era mais digno de riso ou de lágrimas; e qual dos dois gentios andara mais prudente, se Demócrito, que ria sempre, ou Heráclito, que sempre chorava.” A nosso Vieira, coube a defesa de Heráclito: daí seu argumento “As Lágrimas de Heráclito”, contra “O Riso de Demócrito” de seu oponente literário.
O embate foi fantástico, a peça oratória do intimorato Vieira uma verdadeira obra-prima da dialética escolástica, na qual ele sustenta que “... O riso é o final do racional: o pranto é o uso da razão.” E adverte: “Quem conhece verdadeiramente o mundo, precisamente há de chorar e quem ri, ou não chora, não o conhece.” A certa altura de sua oratória ele explica porque Demócrito ria e Heráclito chorava: “Demócrito ria, porque todas as coisas humanas lhe pareciam ignorâncias; Heráclito chorava porque todas lhe pareciam misérias.”
E o grande orador sacro – infelizmente ainda sem audiência cultural entre os brasileiros – termina fechando seu julgamento a favor de Heráclito: “... muito maior razão tinha Heráclito de chorar, que Demócrito de rir, antes digo, que só Heráclito tinha toda a razão e Demócrito nenhuma.”
Nessa tumultuária em que temos vivido esses momentos de “dies horribilis”, inclusive obrigados a nos inteirar das estrambóticas peripécias suscitadas na famigerada “ação penal 470” sob o martelo da nossa Suprema Corte, quanta certeza não tinha Vieira em dar razão ao pranto em vez do riso. Como se há de rir, se os espoliadores da Pátria a ultrajam em atividades de pleno e cabal vandalismo ético e moral? Que as lágrimas de Heráclito preencham nossos olhos e ao pranto levem nossos supremos juízes, a ponto de encharcarem suas togas gritando por justiça, moralidade e a devida punição a tão grave ilicitude.
CDL/BSB, 18.10.12
LIBELO CONTRA OS CRIMES DE-COLARINHO-BRANCO,
PELA JUSTIÇA RESTAURADORA DA CIDADANIA
Para se fazer justiça é preciso que se busque a verdade jurídica e a verdade jurídica não pode prescindir da conscientização da ética e da moral. Como pode haver justiça, quanto a fatos e atos que já ofendem a moral e se desviam dos padrões éticos da sociedade?
Ora, se há fatos que atentam contra a moral, os costumes, como não imputá-los penalmente?
E o que dizer quando se trata de julgamento realizado no mais alto grau?
Será justo o julgamento no qual se arrimam sofismas, não seria de inquiná-lo como sofística decisória na superior instância?
Há de se indagar: uma decisão em nível de última jurisdição pode ter ou revestir-se da veleidade de formar juízos de valor espelhando parcialidades, ainda mais fundamentá-los em argumentos meramente perfunctórios?
Pensamos – cá no mundo dos mortais – que a justiça fosse necessariamente cega, imparcial e independente. E mais, que tivesse compromisso com o corpo social, pois, assim, suas decisões acompanhariam o consenso popular, não no sentido de reproduzir o múnus do povo, a lhana voz do cidadão – que seria o aviltamento da justiça, sem dúvida – mas que se harmonizassem com a vontade que emana do consenso geral, este traduzindo o teor axiológico da sociedade, no seu parâmetro mais expressivo.
Isto significaria dizer que as decisões da mais alta corte de um país não deveriam se evadir da voz geral do ratio populis , sob pena de decorrerem de um colegiado encastelado numa torre de marfim, onde seus representantes se refugiariam para discutir o sexo dos anjos, não os problemas dos seres humanos, envolvendo a vida e o mundo.
É claro que aos juízos valorativos que implicam o dever punitivo cabem também a clemência, a indulgência, a absolvição, portanto. Mas daí fazer da justiça um trampolim para a proliferação da ilicitude é um tremendo absurdo, uma anomalia antropológica com abrir um perigoso precedente à apologia do crime.
Portanto, o ilícito há de ser punido. A sociedade na sua função evolutiva não pode conviver com o germe da ilicitude a corroer-lhe os organismos, os nexos e conexos sociais e regulatórios. O crime, em todas as suas malévolas manifestações, denigre o meio social e a impunidade impede que a sociedade progrida de forma sadia e correta, causando as mais nefastas consequências à vida dos cidadãos honestos. Com muita propriedade afirmou Rui Barbosa do alto de sua competência e dignidade sapiencial: “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra; de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.
O que se espera – o que toda a nação espera da Suprema Corte, dos seus constituintes, todos figuras impolutas, de condutas irrepreensíveis e grande saber jurídico, é que, nas circunstâncias em que vive o país, diante dos vergonhosos fatos que ocorreram no passado recente: julguem, mas que não se acobertem na máscara da isenção, da omissão, e o que seria mais lastimável, utilizarem de decisões factoides, de malabarismos técnicos e burocráticos. Pois se assim o fizerem, perderão a grande oportunidade de consagrar o Direito na sua essência, que é a realização da Justiça.
* O presente editorial foi redigido com a mão esquerda no dia 24.08.12
![]()
|
Nº de visitas desde 2000 |
|
|



